quinta-feira, 27 de setembro de 2012

                                                    
                                                    Keren Bonfim

A pauta agora é as mulheres: Mais belas que Megan Fox




Lila Abu-Lughod escreve sobre a mulher mulçumana e sua burca perguntando-se: “as mulheres mulçumanas precisam mesmo de salvação”? Fala sobre o discurso de Laura Bush, que afirma ser uma das consequências da ‘Guerra ao Terrorismo’ a liberdade das mulheres mulçumanas. Porém, o que é a liberdade das mulheres no mundo contemporâneo? Quem define o que é ser uma “mulher evoluída”? Hoje ser evoluída pode significar não aceitar a burca e a submissão ao marido, porém quem é essa mulher evoluída?

Devemos tomar cuidado para não reduzir as diversas situações e atitudes de milhões de mulheres muçulmanas para uma única peça de roupa. Talvez seja hora de desistir da obsessão americana com o véu e focar em questões mais sérias com as quais as feministas e outras deveriam de fato estar preocupadas.[1]
Quando colocamos que uma mulher do ocidente é evoluída estamos rebaixando as mulheres do oriente a inferiores. Criamos então estereótipos. Ninguém obriga as mulheres de alguns países do oriente (como colocado pela autora em seu artigo As mulheres mulçumanas precisam mesmo de salvação?), entretanto, elas continuam com seus costumes. Se ninguém as obriga à submissão porque temos que obrigá-las a aceitar o valor de “mulher evoluída”?
As autoras Jussara Reis Prá e Léa Epping ao discutirem direitos humanos universais destacam os direitos femininos como, por exemplo, os relacionados à liberdade sexual
Ao avaliar retrospectivamente o caminho percorrido pelas mulheres nas três últimas décadas, não podemos deixar de perceber o seu esforço para mudar as normas vigentes sobre as concepções de gênero e estabelecer as bases para buscar a igualdade de direitos. Sem dúvida, a experiência participativa das brasileiras e seu empenho junto às Nações Unidas e a instâncias sociais e governamentais forneceram os recursos necessários para empreender essa caminhada. Porém, ao pensar nos próximos decênios, podemos perceber que essas práticas continuam a demandar atenção, apesar de evidenciarem muitos resultados exitosos. O aparente reconhecimento da cidadania feminina e a sua inclusão em programas de governos e em agendas nacionais, a partir dos anos 1990, não têm se mostrado capaz de garantir todos os direitos humanos a todas as mulheres. Portanto, essa tarefa continua imperativa para quem defende a expansão da cidadania feminina e a equidade de gênero.[2]
Ao falarmos na mulher na sociedade contemporânea o feminismo vem com força nas nossas cabeças, e não é à toa. Todos - ou pelo menos grande parte - dos avanços na história estão relacionados ao feminismo. A queima de sutiã em praça pública na França. A invasão feminina no mercado de trabalho. A luta da Maria da Penha. Atualmente a Marcha das Vadias. São todos exemplos do poder que as mulheres - ditas minoria - têm.
Maria da Penha representa uma grande parcela de brasileiras que sofrem repressão daqueles que deveriam ser seus maiores incentivadores: seus companheiros. Sua história todos conhecem, porém há muitas “Marias da Penha” que não tem a coragem de denunciar seus maridos ou namorados pela agressão que sofrem. Sendo assim, viram vítimas do seu próprio medo. Maria conta que em sua época “era vergonhoso demais mostrar que a gente sofria violência” E hoje depois de ter passado por tudo relata:
Em todo lugar que eu vou tem alguém que diz que foi salva pela lei, que se não fosse a lei poderia estar morta e nas comunidades mais carentes eu vejo ‘quando meu vizinho foi preso meu marido nunca mais bateu em mim’. E hoje essa mulher pode sair de casa com a certidão do seus filhos, chegar numa delegacia e dizer ‘olha, eu não tenho condições, não quero que ele conviva mais comigo’ e as medidas protetoras são dadas a essa mulher. Ele é retirado de casa e se ele desobedecer a essa ordem vai ser preso. Essa lei tem a cara do que o Brasil precisa em relação a mulher e realmente está fazendo a diferença hoje. [3]
Antigamente a mulher era "escrava" da cultura machista que a obrigava a seguir determinadas ordens e hoje vemos em como, em alguns casos, essas mesmas mulheres escravas da visão da "mulher evoluída", que apregoa: todas têm que ser independentes, terem sua renda, casa própria, dirigir seu próprio carro. Isso parece ser interessante, mas até o momento que não interfere na vida dos outros. Não podemos decidir que ser independente é o certo e querer aplicar isso à força nas culturas orientais, como o exemplo tomado no começo do texto.
Também vemos mulheres escravas da beleza, que fazem de tudo para estar dentro dos padrões que se impõem, deixam de comer aquele doce para caber num manequim menor. Claro que sentir-se bem, achar-se bela é importante para autoestima, aceitar-se do jeito que é. Mas até onde essa massificação de uma beleza exagerada é positiva para as mulheres?
Para algumas pesquisadoras na área da comunicação ainda vivemos uma sociedade machista e parte dessa culpa é dos meios de comunicação. No livro Mulher e mídia: Uma pauta desigual? é colocado que a imprensa, muitas vezes, já tem uma ideia e um posicionamento pré-definidos quando a pauta é mulheres e alguma bandeira feminista. Levando em consideração o forte impacto emocional que tais matérias geram há, mesmo assim, uma tentativa de diminuir essas ideias pré-existentes antes da apuração.
O livro também debate a concepção de leitor que consome esses tipos de mídia. São passivos que só conhecem o feminismo pelo que a mídia conta ou procuram informação por conta própria? Fátima Jordão, socióloga, argumenta que ”os leitores são perfeitamente capazes de se interessar e acompanhar matérias mais longas nos jornais, desde que elas tenham um tratamento adequado.”
Todas essas referências nos fazem repensar o papel da mulher na sociedade contemporânea ocidental. Será ela mesmo machista? Será ela com um toque feminista de “mulher independente”, como uma vítima ou como uma guerreira que levanta as bandeiras de sua luta? Seja qual for a maneira que ela queira viver o mínimo que a sociedade precisa é aceitar como certo o seu jeito, afinal, na nossa era, dita pós-moderna, há espaço para todas.
Luana Caroline do Nascimento
REFERÊNCIA:
EPPING, Léa & PRÁ, Jussara Reis. Cidadania e feminismo no reconhecimento dos direitos humanos das mulheres. Disponível em: http://www.ieg.ufsc.br/revistas.php .Acessado em: <18/09/2012>
FERNANDES, Maria da Penha Maia. Entrevista à Igreja Adventista. Disponível em: http://vimeo.com/13936716. Acessado em: <20/09/2012>
LILA, Abu-Lughod. As mulheres mulçumanas precisam mesmo de salvação? Reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus Outros. Disponível em: http://www.ieg.ufsc.br/revistas.php .Acessado em: <18/09/2012>
OLIVEIRA, Guacira César de; MELO Jacira & LIBARDONI, Marlene (org.). Mulher e mídia: Uma pauta desigual? São Paulo. CFEMEA/RedeSaúde. 1997
[1] LUGHOD, Lila Abu, 2012
[2] PRÁ, Jussara Reis e EPPING, Léa, 2012
[3] FERNANDES, Maria da Penha Maia, 2010


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