Keren Bonfim
Sobre os sons, a noite e os objetos...ou sobre qualquer coisa
O silêncio da noite é único. No quarto, apenas o “ronco” do
computador ligado e o bater dos dedos no teclado. De vez em quando, uma ou
outra bolacha é retirada do pacote e o barulho dos dentes triturando pedaço por
pedaço se confunde com os outros sons. E lá fora? Um cachorro late distante,
uma música toca na vida noturna que se fecha, um carro que passa ou um lap lap
de sapatos na escada ao lado. Os sons se misturam mais uma vez e a vida se torna
apenas um fragmento de algo maior, algo que não se encontra nos sons, mas
dentro da gente.
Uma buzina e o som de uma mota, a vida continua. Já dizia o
poeta que a noite é um mistério e estava certo ao deixar para o infinito aquilo
que não tem explicação. Em algumas janelas há luzes acesas, às vezes uma ou
outra sombra surge na rua vazia, porém, o silêncio maior e predominante
permanece. A sensação de que, mesmo por um curto espaço de tempo, a vida tem o
seu fluir interrompido faz-se predominantemente à noite. É ela quem esconde os
“mistérios da meia-noite que andam tarde”, guarda as pessoas da exposição
aberta e rancorosa que o dia traz. O sinistro é mais visível, se é que alguém
já o viu. De qualquer forma, há algo que se esconde lá fora, uma coisa, um ser,
um negócio, uma sensação, qualquer coisa, mas que está preso na escuridão.
Um assobio cortante nas escadas, quem será? Não dá pra
saber, é apenas uma alma errante tentando fazer a sua felicidade (ou não). O
assobio se cessa assim que começa a ser descrito, do mesmo jeito que as coisas
boas se acabam assim que são tocadas. Uma freada lá fora, sempre lá fora, pois
é do lado de fora que a vida permanece, mesmo num período em que está na sua
fase de descanso: a noite. Aqui dentro, os sons são iguais aos de antes e não
há nenhum mistério, pois os móveis e os objetos de ADORNO continuam nas
posições anteriores. Dois minutos atrás, a geladeira produzia o mesmo ruído,
uma semana atrás e o ruído o mesmo, dois meses atrás e ela estava no conserto
porque deixara de produzir ruídos. Noite e noite se passaram e hoje ela está
aqui, no mesmo local em que foi deixada desde o dia em entrou pela porta. Pela
porta? É claro, embora alguns dos outros objetos que produzem ruídos parecidos
com os dela tenham entrado pela janela. É o caso do vento...
...o vento, que mora aqui desde que apenas as árvores
existiam no lugar. Ele entra todos os dias pela janela e não pede licença,
aliás, por que pedir licença se o espaço era anteriormente totalmente dele? Nesta
noite gelada, ele entra pelas frestas da janela e se instala nas mãos de quem
digita, é como se sentisse uma vontade tremenda de impedir que as letras fossem
surgindo no visor do computador. Mas as mãos são fortes, elas se apertam, se
esfregam e conseguem fazer com que, pelo menos alguns segundos, ele vá embora.
Uma porta é tocada pelo vento e o seu ranger modifica o
aspecto de um ambiente antes acostumado com os sons já instalados. Minutos mais
tarde tudo está igual ao que era antes: fragmento de um instante perdido,
parado, calmo e frio de uma noite qualquer.
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